'Pude sair da prisão': Como medida protetiva ajudou mulher a sobreviver a violência doméstica e se dedicar a ajudar outras vítimas em RO

Vítima de violência supera agressões e ajuda outras mulheres em RO Em Rondônia, o segundo estado que mais mata mulheres no Brasil, o ciclo da violência pode ter...

'Pude sair da prisão': Como medida protetiva ajudou mulher a sobreviver a violência doméstica e se dedicar a ajudar outras vítimas em RO
'Pude sair da prisão': Como medida protetiva ajudou mulher a sobreviver a violência doméstica e se dedicar a ajudar outras vítimas em RO (Foto: Reprodução)


Vítima de violência supera agressões e ajuda outras mulheres em RO Em Rondônia, o segundo estado que mais mata mulheres no Brasil, o ciclo da violência pode terminar em estatística. Mas o que acontece quando uma delas encontra uma saída? Gracileide Damasceno, de 47 anos, sobreviveu a décadas de violência doméstica e, quando decidiu encerrar o relacionamento, sofreu os piores episódios de agressão pelo ex-marido. Por meio de uma medida protetiva concedida pela Justiça de Rondônia há 10 anos, ela conseguiu um "passaporte" para uma nova história e hoje dedica a vida ao acolhimento de mulheres que enfrentam situações semelhantes. "O meu medo era de ele sair lá da cadeia e vir me matar ou matar meus filhos. Por meio dessa medida protetiva, eu pude sair do município com segurança e começar do zero", aponta. ➡️ De acordo com dados do Tribunal de Justiça de Rondônia (TJ-RO), mais de 10 mil medidas protetivas de urgência foram solicitadas no estado somente em 2025. Quando Gracileide precisou, foi necessário procurar uma unidade presencialmente. No entanto, atualmente, é possível fazer a solicitação sem sair de casa, por meio de um celular ou computador (veja, mais abaixo, como solicitar). Leia também - Órfãos do feminicídio: entenda os desafios que as famílias enfrentam além do luto em Rondônia Por causa do relacionamento abusivo, Leide — como prefere ser chamada — concluiu o ensino médio somente depois da separação. Aos 46 anos, ela realizou o sonho de se tornar assistente social e atualmente é coordenadora do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Itapuã do Oeste (RO). No entanto, antes de ocupar a cadeira onde hoje acolhe outras vítimas de violência doméstica, ela precisou atravessar o que define como: 'O fundo do poço' Órfã de pai aos 15 anos e sem estrutura familiar, Gracileide viu no casamento uma promessa de estabilidade. O relacionamento, contudo, mostrou-se o oposto. Ao longo dos anos, o marido revelou-se cada vez mais abusivo, controlador, ciumento e agressivo. Essa é a visão que ela tem hoje. À época, ela tinha pouca consciência sobre a própria situação e chegou a acreditar que o seu amor "serviria por dois" no relacionamento. "Ele já tinha me empurrado, ele já tinha me xingado, ele já tinha puxado o meu cabelo, mas, até então, eu não via aquilo como uma agressão porque ele pedia desculpas depois, dizia que não sabia por que tinha feito aquilo", explica. Segundo a psicóloga da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica do TJ-RO, Aline Rodrigues, esses são padrões comuns em relacionamentos abusivos. Um dos maiores desafios do enfrentamento à violência doméstica é a naturalização cultural do comportamento violento. "Em uma sociedade na qual determinadas práticas de controle, ciúme excessivo, desqualificação e imposição de limites à autonomia feminina ainda são frequentemente interpretadas como manifestações de amor, cuidado ou preocupação, torna-se mais difícil reconhecer essas condutas como formas de violência", aponta. Imersa nessa naturalização e sem rede de proteção, Leide viveu anos no ciclo de violência. A percepção mudou quando passou a trabalhar para uma assistente social e, posteriormente, para uma agente penitenciária. Por meio do convívio com as duas, ela entendeu que o que vivia era, na verdade, um crime. Porém, ao decidir encerrar o relacionamento, a mulher foi vítima das agressões físicas mais graves de sua vida. "Ele pulou o muro lá da minha casa, onde eu residia com meus filhos, arrombou a porta de lá, e ali começaram as agressões. Ele me bateu muito. Os vizinhos ouviram toda aquela situação, os meus filhos também", relembra. O homem foi preso, mas liberado pouco tempo depois, e a situação se repetiu. No segundo episódio, a vítima mostrou as marcas da violência na Delegacia da Mulher e foi orientada a solicitar uma medida protetiva no Fórum de Guajará-Mirim (RO), onde morava. No local, foi atendida pela juíza Juliana Paula Silva da Costa. Esse passo deu início ao que ela chama de: 'O recomeço' "A Dra. Juliana [juíza que concedeu a medida] foi um anjo que Deus colocou na minha vida, porque através daquela medida protetiva eu pude sair da gaiola, sair da prisão. E hoje, graças a Deus, eu estou formada, bacharel em serviço social. Eu já ajudei muitas mulheres", agradece. O agressor foi preso novamente e, quando liberado, passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica. Gracileide mudou de cidade e começou a reconstruir a própria vida, mas, para isso, precisou de ajuda psicológica para superar os traumas. "Ele dizia que eu estava me achando, que eu estava me achando a garotinha, que eu não era novinha mais, que ninguém ia me querer, que eu estava gorda, feia. Tudo aquilo eu trouxe pra mim", relembra. Para reconstruir a vida do zero em outra cidade, Leide trabalhou em uma fábrica de palmito, fez faxinas e passou roupas em condomínios. Começou a trabalhar no Creas de Itapuã do Oeste como estagiária, quando ainda estava na faculdade, e cresceu profissionalmente até se tornar coordenadora da unidade. Atualmente, Leide desenvolve um projeto de sua autoria, no qual mulheres vítimas de violência doméstica são beneficiadas com cursos feitos em parceria com empresas locais para que alcancem a independência financeira. Leide Damasceno, atuando como assistente social Leide Damasceno/Arquivo Pessoal O reencontro Anos após a medida protetiva, a trajetória de Leide voltou a se cruzar de forma inesperada com a da juíza Juliana durante um trabalho externo do Judiciário no Creas de Itapuã do Oeste, local onde Leide cumpria seu estágio e atuava como voluntária. O reencontro teve muito significado para ambas. Leide lembrou de tudo que já tinha passado e do quanto conseguiu se reinventar.Já a juíza percebeu, de forma concreta, como o próprio trabalho ajudou a salvar um vida e que ela não estava "enxugando gelo". "Ouvir seu testemunho foi compreender, de maneira muito concreta, que uma decisão judicial pode ultrapassar os limites de um processo e alcançar o destino de uma pessoa. Essa talvez seja essa uma das maiores recompensas da magistratura: descobrir que, por trás de uma decisão, existe uma vida inteira que pode ser reconstruída", relembra a juíza. Atualmente, Leide e a juíza mantêm uma parceria profissional de apoio mútuo no enfrentamento à violência doméstica. Embora atue em outra área, a magistrada continua prestando suporte institucional e auxiliando o Creas coordenado por Leide. Leide Damasceno e a juíza Juliana Paula da Silva Leide Damasceno/Arquivo Pessoal O ciclo (rompido) A psicóloga Aline Rodrigues explica que relacionamentos como o de Leide possuem um ciclo de violência que pode se repetir e se intensificar ao longo do tempo. O padrão é marcado pelo aumento da tensão, por episódios de agressão e por uma fase de reconciliação — quando o parceiro promete mudanças e passa a ser mais afetivo, gerando a falsa expectativa de que a situação não se repetirá. Ela também esclarece que sair de relacionamentos assim envolve obstáculos emocionais, econômicos, familiares e sociais, além do medo de novas retaliações. Por isso, a permanência da mulher no convívio com o agressor não deve ser interpretada como aceitação. "O enfrentamento dessas situações requer informação, atendimento acolhedor, respeitoso e sem julgamentos, além do acesso a uma rede de proteção capaz de oferecer condições concretas de segurança e apoio", reforça. Estado letal para mulheres Segundo dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2026, Rondônia ocupa o segundo lugar no ranking dos estados com as maiores taxas de feminicídio do Brasil: 2,9 casos para cada 100 mil mulheres, totalizando 25 vítimas mortas em razão do gênero somente em 2025. Em anos anteriores, como 2022 e 2023, o estado esteve na liderança ou entre os mais letais para mulheres, também considerando a taxa de feminicídio. Relembre: Rondônia é o estado com a maior taxa de feminicídios no Brasil, diz Anuário de Segurança Pública Rondônia é o segundo estado do país com maior índice de feminicídios ➡️ A legislação brasileira tipifica o feminicídio como um crime de ódio ao gênero feminino, que geralmente ocorre quando a vítima está em contexto de violência doméstica, assim como quando há menosprezo ou discriminação pelo simples fato de ela ser mulher. Segundo a desembargadora Inês Moreira da Costa, do TJ-RO, esse cenário de violência está diretamente ligado à quantidade de medidas protetivas solicitadas no estado. "Não é um número que a gente fica feliz em saber, mas isso representa que a violência contra as mulheres aumenta a cada ano", comenta. ➡️ Entre 2021 e outubro de 2026, mais de 50 mil medidas protetivas foram solicitadas em Rondônia, de acordo com dados do próprio Tribunal de Justiça. O ano com a maior quantidade é 2025, quando foram feitos mais de 10 mil pedidos. Como solicitar uma medida protetiva? O pedido de medida protetiva pode ser feito mesmo que não haja um boletim de ocorrência formal, inquérito ou processo ativo. A solicitação pode ser realizada presencialmente em delegacias, com a Polícia Militar, no Ministério Público, na Defensoria Pública ou por meio de um advogado. Também é possível fazer o pedido remotamente, através do site do TJ-RO ou pelo aplicativo do tribunal, disponível para Android e iOS. Acesse aqui o link para fazer o pedido A solicitante deve preencher um formulário com informações pessoais e do agressor, relatar a violência sofrida e anexar arquivos, caso tenha. Ao final, é necessário enviar uma foto no formato de "selfie" para comprovação de identidade. ⏰O tempo de resposta no estado costuma ser rápido. Em junho deste ano, o TJ-RO divulgou o caso de uma mulher que teve a medida concedida em menos de uma hora: o pedido foi feito às 9h18 e deferido pelo juízo às 10h16. O que acontece quando a medida protetiva é concedida? De acordo com a desembargadora Inês Moreira, após a concessão da medida, o acompanhamento é feito pela Polícia Militar. Em Rondônia, atua a Patrulha Maria da Penha, serviço especializado voltado à prevenção e ao enfrentamento da violência contra a mulher. A coordenadora da Rede Lilás de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, Rosimar Francelino, reforça que a efetividade das medidas depende da atuação integrada dos sistemas de segurança pública, justiça, assistência social e saúde. Ela destaca a importância de instrumentos como o Formulário Nacional de Avaliação de Risco (Fonar) e o Instrumento para Avaliação de Violência Psicológica (IAVP) para identificar riscos e traçar estratégias de proteção. "É fundamental que os profissionais estejam qualificados para aplicar corretamente os instrumentos de avaliação de risco, bem como os protocolos de encaminhamento, acompanhamento e monitoramento, considerando as especificidades de cada caso, o tipo de violência praticada, sua gravidade e o respectivo nível de risco identificado", explica. Em resposta ao g1, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a Polícia Civil de Rondônia informou que existem oito Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam) no estado. No entanto, nenhuma delas funciona em regime de 24 horas. Além disso, Porto Velho não conta com uma delegacia de sede própria para o atendimento exclusivo à mulher. Vítimas de violência doméstica na capital precisam buscar ajuda na Unidade Integrada de Segurança Pública (Unisp), localizada na Zona Leste da cidade.